quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O Resgate da Alma Ancestral do Brasil


Sempre pensei que teria que responder a questões que o destino já propusera aos meus antepassados, sem que estes lhe houvessem dado qualquer resposta; ou melhor, que deveria terminar ou simplesmente prosseguir, tratando de problemas que as épocas anteriores haviam deixado em suspenso. (Carl Gustav Jung)


Os fatos confirmam que a alma brasileira está doente, fragmentada e mutilada. Mas qual é a origem desse sofrimento? Como curar essa dor? Que direção precisamos tomar? Para onde devemos olhar?
Roberto Gambini, sociólogo e analista junguiano, dedicou seu tempo para o estudo e reflexão acerca da origem, da história e do drama arquetípico brasileiro. Segundo o autor, nossa história é trágica e traumática. O Brasil é como um paciente que está sofrendo e precisando de tratamento. Esse, por sua vez, passa pelo reconhecimento e resgate daquilo que Gambini chamou de Alma Ancestral do Brasil. Ele acredita que se adotarmos uma atitude de olhar e compreender a fundo a nossa história, no sentido de como se deu a formação do nosso povo, poderemos construir uma plataforma de lançamento em direção ao país em que sempre sonhamos viver, um país com um futuro criativo e genuinamente nosso.

Compartilho com vocês uma transcrição adaptada e realizada por mim da palestra proferida pelo autor em 2012. Boa leitura!


O RESGATE DA ALMA ANCESTRAL DO BRASIL
Por Roberto Gambini*





Havia uma realidade humana bastante forte e estruturada na época que os portugueses chegaram no Brasil. No entanto, a imagem que os invasores tiveram é de que esse povo, até por estar nu, era um povo desprovido, vazio e sem conteúdo. Para o olhar dos europeus, os povos que habitavam o Brasil e as Américas (desde a Patagônia até o Alasca), estavam mais próximos dos animais do que dos seres humanos. E nesse sentido, há um rebaixamento e uma degradação da qualidade humana dessas pessoas. É como se aqueles habitantes, que no Brasil eram em torno de 12 milhões de pessoas, fossem semi-humanos, ainda um pouco animais e portanto, sem alma. Logo, a idéia que se tinha é que os missionários católicos, principalmente os jesuítas, viriam para cá para fazer um grande serviço, o de elevar aquele povo pagão, bárbaro, semi-humano à categoria de humanidade. E isso se deu através do batismo e da conversão dos índios ao cristianismo.

Pelo fato dos livros de história abordarem isso muito depressa, as crianças, e depois os adultos, continuam reproduzindo a visão de que os índios são uns ignorantes, preguiçosos e sem moral. O que não ficou suficientemente claro, porém, é que esse olhar era e ainda é um olhar absolutamente destrutivo. O olhar do europeu era de que o branco era indiscutivelmente superior a esses outros seres. Os índios, não possuindo nada, sendo vazios (apenas corpos) só teriam a ganhar e a receber coisas.

Por isso, nossa história se constrói basicamente sobre uma relação de corpos. Os portugueses ficaram muito interessados pelos corpos das mulheres. Eram corpos que lhe despertavam desejo, muito difícil de externalizar em um Portugal regido pela Inquisição e por normas muito duras de comportamento. As mulheres que os conquistadores conheciam eram devotas, submissas e contidas, contrastando com aquelas que encontraram no Brasil, vistas por eles como amorais, sedutoras e, acima de tudo, disponíveis e nuas. Também ficaram muito interessados pelos corpos dos homens, um corpo forte, que poderia gerar força de trabalho. No entanto, todo esse interesse era apenas pela materialidade dos corpos, já que, para os invasores, os índios não tinham idéias, pensamentos, sentimentos e elaborações culturais.

Porém, o que se sabe hoje em dia é que em 1500, no território que corresponde ao Brasil, havia pelo menos mil grupos indígenas distintos, cada um com sua cultura, com sua língua, com sua religião, com sua mitologia, com sua arte, com sua forma de viver, de obter elementos e de se relacionar com a natureza e entre si. Ou seja, essas pessoas tinham imaginação e vida interior. Elas tinham alma. Fato que foi comprovado através da análise e investigação das pinturas rupestres e incisões em pedras e rochas, algumas originadas há cerca de trinta mil anos atrás, muito mais antigas que as pinturas encontradas na França ou na Espanha, por exemplo, que datam de doze ou treze mil anos atrás, as mais antigas encontradas na Europa.

Mas o que isso significa? Significa que há 30 mil anos atrás, o Brasil estava evoluindo, que aqui estava acontecendo uma coisa fantástica, que é o surgimento da inteligência moderna. Nesses milhares de anos atrás, no Brasil, juntaram-se quatro modalidades diferentes de inteligência: a capacidade de entender o meio ambiente, a capacidade das pessoas de entenderem umas às outras e poderem se relacionar, a capacidade de criar linguagem e a capacidade de criar histórias, mito e religião. E isso é alma.

Da junção dos europeus que aqui desembarcaram e dos autóctones que aqui habitavam, dois tipos de alma tão distintos, poderia ter surgido algo maravilhoso, mas infelizmente não foi o que aconteceu. A alma européia destruiu a alma indígena. E o fez destruindo a sua religião, destruindo as suas crenças mais sagradas, sua mitologia e a sua visão de mundo. A grande tática de conquista no Brasil não foi os canhões, as espadas ou as armas de fogo, foi a religião. O povo indígena, por sua vez, por ter uma natureza pacífica, não ofereceu resistência. Eles acreditavam que aquele recém chegado iria lhe fazer o bem.

Então, quando pensamos em alma brasileira, como algo que queremos conhecer e resgatar, nós precisamos, antes de tudo, reconhecer que no início da nossa história houve uma negação. Havia uma alma, e esta alma foi negada e, conseqüentemente, destruída. No plano real, concreto, isso se deu pela formação do casal típico, composto por um português e por uma mãe índia. Darcy Ribeiro disse certa vez, que esses primeiros brasileiros eram “Zé Ninguéns”. O Zé Ninguém é aquele que não sabe quem ele é, não sabe o quanto vale, o que pode sonhar e o que pode construir. Ele simplesmente vai vivendo a vida, andando conforme suas forças. Então, desses primeiros Zé Ninguens formaram-se massas enormes de população no Brasil, que não tinham uma característica, um ideário ou valores próprios de identidade. Um povo ignorante em relação à perda de metade de sua riqueza.

Por isso, o resgate da alma brasileira passa por procurar aquilo que foi perdido. Passa por compreender que a nossa identidade não se faz por cópia, não se faz por políticas públicas, não se faz por imitar nenhum outro povo. Ela se faz pelo mergulho dentro de nós e dentro desse passado. Muitas pessoas estão chegando a isso pela via das artes plásticas ou manuais, da palavra escrita, da literatura, da poesia, da música, da moda e da estética, dos modos de viver e dos objetos, e também pela via do reconhecimento de que nós temos algo que é absolutamente perfeito e que vem da vida indígena: uma enorme alegria de viver e de estar junto com as pessoas.

A tribo, por exemplo, é uma das maiores criações sociológicas da humanidade, porque ela se baseia nos conceitos da igualdade, da cooperação e da partilha. Na tribo não há domínio, não há diferença entre os seus membros, não há a ideia de “eu” ou “meu”. Se formos observar a construção de uma casa indígena, veremos que todos os homens e mulheres irão participar de forma igualitária. Não há um mestre de obras, um arquiteto ou alguém que esteja no comando dizendo o que cada um deve fazer. Todos sabem o que é preciso fazer e todos cooperam para que o trabalho aconteça. Também não há divisão entre trabalho e lazer. Para os índios, eles não são conceitos antagônicos. Se, por exemplo, durante a construção dessa casa, alguém chega com um favo de mel, o trabalho logo é interrompido para que todos possam desfrutar daquele mel, e tudo isso é acompanhado de muita brincadeira e diversão. Portanto, há uma sabedoria implícita aí de como é possível viver a vida sem neurose, sem stress, sem amargura e sem destruir aquilo que existe de bom. E tudo isso faz parte do nosso genoma, da parte psíquica do genoma brasileiro: a capacidade de criar vida em conjunto no meio ambiente, criando prazer e alegria para todos. Todas essas características são facilmente observadas em Parques Nacionais, como o do Xingu, onde a cultura indígena encontra-se ainda bastante preservada.

Muita gente hoje no Brasil tem tentado resgatar essa realidade, tornando-a viva e consciente. Procurando olhar para o nosso território e percebendo aquilo que existe de bom: o litoral, o valor dos rios, riachos e cachoeiras, das frutas e seus sabores, as cores, as pinturas e, principalmente, o resgate do prazer com o próprio corpo. Os índios são mestres na arte de exaltar o corpo, de se encantar com ele, de enfeita-lo através das pinturas e adereços, através das danças, enaltecendo aquilo que ele tem e nos traz de bom. Para os missionários, isso foi visto como algo demoníaco ou diabólico, mas se olharmos com o olhar contemporâneo, veremos que os índios brasileiros são, entre todos os povos, os que mais conseguem ter alegria e prazer com o próprio corpo, que mais conseguem iluminar a sua beleza, e por um motivo muito simples: porque é bom! Por isso, a nudez indígena é uma grande lição. Ela não tem nada a ver com vergonha ou falta dela. Pelo contrário, a nudez é o reconhecimento da beleza e do prazer do nosso corpo, longe dos padrões culturais socialmente impostos.

Portanto, essa busca pela alma brasileira é algo que nos fará evoluir. Se estivermos realmente em processo de busca, cada um do seu jeito e com suas ferramentas, e conhecendo essa alma ancestral, vamos perceber que, enquanto povo, estamos em um processo único e muito interessante. Nós estamos fazendo um retorno, estamos indo para aquilo que a gente era no começo, só que atualizado à contemporaneidade. E nessa busca pela nossa alma ancestral, vamos reaprender como é saber viver a vida com pouco, como é ver a beleza do pequeno ao infinito, como é ter vida interior e saber ter relacionamentos que sejam geradores de cooperação. Isso não é algo artificial, pelo contrário, isso está no nosso genoma, no nosso nascedouro, naquele tempo lá atrás. Basta resgatar.

O Brasil é um país que tem a possibilidade de retomar uma energia que brota da Terra e que nos conduz sem erro a sermos aquilo que a gente deveria ter sido desde o começo. Esse processo acaba com o complexo de inferioridade, acaba com o complexo de “Vira-Lata” , como dizia Nelson Rodrigues, dando início a um processo de valorização de tudo: da diversidade do nosso território, do tamanho dele, da sua abundância, do fato de não haver catástrofes naturais terríveis aqui e do fato de também haver muitas outras culturas que vieram e se integraram. É como se no Brasil fosse possível fazer uma obra alquímica, na qual colocam-se diversos ingredientes em uma mesma panela e no final do processo há uma grande metamorfose, fazendo surgir uma obra preciosa.

É claro que existem muitos problemas no Brasil. Nós somos um país bastante injusto, desigual e excludente. A maior parte da população brasileira não tem acesso aos bens mais elementares, enquanto uma minoria dispõe da maior parte dos privilégios e da riqueza. E todos nós sabemos que essa não é uma herança indígena, pelo contrário. O igualitarismo é indígena. Ele existia, mas foi pervertido. Por isso, é preciso um trabalho nas duas direções: nós temos uma problemática socioeconômica e nós temos uma problemática psicológica e cultural. Essas duas problemáticas têm que andar juntas, e uma alimenta a outra.

O sonho de um Brasil dono de si, digno e que reconheça o seu próprio valor não é algo artificial, é algo que ficou reprimido. Logo, isso pode ser trabalhado e trazido para a consciência. Cada um que fizer esse trabalho a partir de si mesmo ficará com uma força nova. Essa força terá poder de multiplicação e dará luz a uma energia direcionada para a construção, não apenas de uma identidade, mas principalmente de uma história liberada. Uma história que poderá então correr livre, sem ser distorcida. E esse é o grande sentido do resgate da Alma Brasileira. 


* Analista formado pelo Instituto C.G.Jung de Zurique, membro da Sociedade Internacional de Psicologia Analítica e da Sociedade Suíça de Psicologia Analítica. É analista, sociólogo, advogado e Mestre em Ciências Sociais pela Universidade de Chicago. É autor de vários livros sobre a formação da Alma Brasileira, entre eles O Espelho índio: os Jesuítas e a Destruição da Alma Indígena, Ed. Espaço e Tempo, 1988, além de vários artigos.


Por Melissa Samrsla Brendler
Psicóloga - CRP O713831
Atende em Porto Alegre – RS

17 comentários:

  1. Alma simples pura e bondosa do Indio, do Negro e do Pobre chora dentro de cada brasileiro.Essa é a nossa DÍVIDA socio-cultural com a HUMANIDADE,

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  2. Gratidão.... Resgatando a beleza da alma brasileira!!!huhu huhhhhh!!!!

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  3. Que fantástico! Parabéns. Sinto tanto o que acontece com os índios ,negros. E ,quero fazer alguma coisa pra multiplicar à busca dessa "cura", desses valores. Rosa

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    1. Obrigada Rosa! O trabalho é de conscientização! Grande beijo!

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  4. Excelente artigo. Todo brasileiro precisar pra se reconhecer nele! Bravo!

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  5. Belíssimo convite à reflexão para a reconquista e formação da alma brasileira. Gostei especialmente disto:"E nessa busca pela nossa alma ancestral, vamos reaprender como é saber viver a vida com pouco, como é ver a beleza do pequeno ao infinito..."

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  6. muito bom, quisera que pudéssemos fazer chegar esse rico conhecimento para muito mais pessoas.

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    1. Sim, seria muito bom e necessário!!! Precisamos dessa sensibilidade para transformar a nossa realidade!Obrigada pelo comentário!Grande abraço!

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  7. Resgate da alma do povo brasileiro .Muito importante.

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  8. Bem interessante a análise por esse prisma!

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  9. Adorei o texto!!!
    Amei como o autor conseguiu fazer uma sintese tão verdadeira e clara, integrando aspectos históricos e atuais da nossa realidade brasileira!!!
    Não só esse texto mas a obra de Roberto Gambini precisa ser conhecida, principalmente por nós brasileiros. Quero ler mais!!!
    Creio que estamos sim, vivendo esse resgate de nossa "alma brasileira" sobre vários aspectos. Por isso mesmo, talvez, tb estamos tendo tanta resistência por parte dos poderosos do grande capital estrangeiro que quer novamente controlar nossos corpos, mentes e nossa própria alma...
    Meu nome é Márcio Nogueira sou tb psicólogo Junguiano e trabalho com terapias que abordam o corpo, a mente e o nosso espiritual.
    Obrigadíssimo, Mellissa, por transcrever e divulgar esse belo texto! A alma brasileira agradece!

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