terça-feira, 20 de outubro de 2020

CARL GUSTAV JUNG, uma introdução

 



Carl Gustav Jung foi um psiquiatra e psicoterapeuta suíço que fundou o que chamamos de Psicologia Analítica. 

Ele nasceu em 1875 na cidade de Kesswil e morreu em junho de 1961 em Zurique, quando estava com 86 anos.

Foi uma criança bastante criativa e imaginativa. Durante sua infância teve alguns sonhos e visões bastante significativos e simbólicos, cujas imagens se assemelhavam àquelas dos mitos e religiões. Esses sonhos e visões lhe causaram profunda impressão e acabaram contribuindo para despertar em si um profundo interesse por esses assuntos.

Jung também foi bastante influenciado pela atmosfera religiosa e misteriosa do seu ambiente familiar. Seu pai era um pastor luterano e a sua mãe por vezes esteve envolvida em alguns fenômenos parapsicológicos que aconteciam dentro da sua casa. Essa realidade era algo que desafiava a compreensão de Jung. Por um lado, seu pai lhe apresentava uma fé cega, uma imagem de Deus que não fazia sentido, atrelada a um conjunto de dogmas petrificados, que não favoreciam o desenvolvimento pessoal e nem um questionamento mais profundo sobre a vida. Por outro lado, os fenômenos misteriosos, seus próprios sonhos, visões e fenômenos da natureza, lhe instigavam a buscar um sentido maior, um algo a mais que ele ainda não havia compreendido e que nem a religião de seu pai e nem a ciência da época conseguiam lhe dar respostas. Isso gerava uma profunda insatisfação no jovem Jung. Ele percebia que a ciência e a religião eram como duas instâncias que não se tocavam, que não conversavam entre si. Então, na tentativa de saciar esses dois aspectos e de fazer justiça ao ser como um todo, ele decide, por volta de 1900, já médico formado, a especializar-se em psiquiatria, a obscura especialidade médica que acabara de nascer e que ainda era um tanto incompreendida. Era a sua tentativa de promover o encontro tão almejado entre natureza e espírito. Sua tese de doutoramento foi justamente um estudo sobre as mesas mediúnicas realizadas por uma prima próxima, sob o título: "Sobre a psicologia e a patologia dos fenômenos ditos ocultos".

Jung segue seus estudos. Por volta de 1903, tem acesso ao livro de Freud sobre a Interpretação dos Sonhos e fica profundamente interessado. Eles começam a trocar correspondências, vão se aproximando e, em 1907, eles finalmente se conhecem pessoalmente. Foi um encontro bombástico e um divisor de águas na vida de Jung. Freud começou a ver nele uma espécie de príncipe herdeiro. Alguém que levaria seus estudos adiante. Jung admirava o colega, mas começou a perceber uma forte resistência em relação aos seus principais questionamentos. Jung não concordava serem as causas dos conflitos emocionais todas de origem sexual. Para ele, essa era uma visão muito reducionista da natureza humana. Freud não admitia o interesse de Jung pelos fenômenos espirituais e buscava reforçar seus pressupostos de uma forma que os transformava em dogmas ou verdades inquestionáveis. Jung se viu sem espaço e diante de uma situação que ele conhecia e já tinha vivenciado lá atrás no tempo com seu pai. A diferença é que agora estava diante do dogma científico. Em 1911, Jung inicia enfim um rompimento, que viria a ser definitivo, e mergulha de vez na construção de sua própria teoria.


Jung não tinha nenhuma espécie de preconceito científico. Para ele, tudo era fonte de pesquisa e análise, inclusive suas próprias experiências. Ele começa a estudar todas as áreas de manifestações humanas: história, filosofia, culturas das mais diversas, arte, mitologias, alquimia, métodos místicos, ciências sagradas, religiões - das mais antigas às mais recentes e estruturadas - além dos sonhos, visões e fantasias próprias e de seus pacientes. Nesse processo, começa a perceber algo em comum em todo aquele material, começa a perceber um certo padrão de manifestação. Esse padrão comum que ele foi pesquisando e descobrindo é o que ele passou a chamar de Inconsciente Coletivo, o aspecto mais original da sua teoria e um conceito determinante para o entendimento de todo o desenvolvimento da personalidade na visão da Psicologia Analítica.


O Inconsciente Coletivo é a camada mais profunda da psique. Ele é uma base psíquica herdada e universal, na qual está contida a memória do nosso passado enquanto espécie, nossa história como seres humanos sobre a Terra e toda a sabedoria e experiência acumulada ao longo de incontáveis séculos de evolução, desde as nossas origens pré humanas e animais. São memórias de potenciais, estruturas e caminhos herdados que ficaram gravados na estrutura cerebral da espécie, como resultado das experiências cumulativas da humanidade. Nós herdamos a possibilidade de reviver essas mesmas experiências, e elas funcionam como predisposições vivas que condicionam nosso modo pensar, sentir, agir e perceber o mundo.

Por exemplo: mesmo que nunca tenhamos visto uma cobra, todos nós possuímos uma predisposição a ter medo e a reagir de uma forma típica e instintiva diante da presença desse animal. Isso acontece porque ao longo da história da humanidade inúmeros ancestrais já estiveram diante dessa mesma experiência e foram suas vítimas fatais. A memória dessa experiência repetida ficou guardada no inconsciente coletivo como uma prontidão viva, que pode então vir a ser acionada, dependendo da nossa experiência individual.

Essas prontidões vivas ou predisposições que formam modos de pensar, sentir e agir de uma maneira tipicamente humana é o que o Jung chamou de Arquétipo. Eles são como que órgãos psíquicos inatos transmitidos de forma hereditária que contribuem para estruturar e organizar a personalidade, da mesma forma que os instintos. Há tantos arquétipos quanto situações típicas na vida. Como no exemplo da cobra, quando algo ocorre na vida que corresponde a um arquétipo, este logo é ativado e se impõe sobre a situação. De forma compulsiva, passamos a agir instintivamente, seguindo um determinado script ou roteiro que é igual em todas as culturas e em todos os lugares, contra toda a nossa razão e nossa vontade. Essa experiência individual do arquétipo vai ajudar a fornecer uma imagem interna para ele. Aquilo que antes só existia enquanto potencial, ou como uma forma vazia latente e profundamente inconsciente, passa a adquirir substância e uma face muito específica a partir da experiência vivida.

Esse processo de personalização dos arquétipos vai criando o que chamamos de Inconsciente Pessoal. Um cenário interior composto por inúmeras imagens arquetípicas, em torno das quais estão agregadas emoções, sensações, percepções, pensamentos e reações que foram vivenciadas por essas experiências arquetípicas.

Esses núcleos carregados de emoção e significado - em cujo centro há um arquétipo - é o que o Jung chamou de Complexo. O arquétipo, portanto, aparece e se consolida na psique individual através do complexo, e eles vão formando os blocos estruturais de toda a organização psíquica. Os complexos são uma rede de associações em torno de um tema, que vão criar padrões de interpretação e de resposta a esse mesmo tema todas as vezes em que ele aparecer na vida individual.


Por exemplo: todos os seres humanos sempre tiveram mães. Portanto, todos os bebês nascem com uma predisposição a perceber e reagir à uma mãe. Essa é uma experiência arquetípica. No momento do nascimento, esse arquétipo é imediatamente ativado, e todas as emoções, sensações, sentimentos, ideias e experiências que essa criança experimenta com a sua mãe e outras figuras maternas importantes vai formando a sua imagem interna de mãe e um determinado padrão de resposta à ela: esse é o seu Complexo Materno. Em outros momentos, quando esse indivíduo estiver diante de qualquer situação da vida onde a ideia de mãe estiver presente, esse complexo será ativado com toda a sua rede de associações correspondentes, fazendo o indivíduo agir de acordo com o roteiro do complexo em questão.

Os complexos não são nem negativos e nem positivos, mas os seus efeitos podem ser. Vai depender do papel que eles exercem na nossa forma de interpretar as situações da vida, nos nossos padrões de comportamento e reações emocionais.

Os principais complexos definidos por Jung são:

  • O Ego,
  • A Sombra,
  • A Persona,
  • A Anima ou Animus.

 

O Ego

O Ego é o primeiro e mais importante complexo. Ele ocupa o lugar central da consciência. É o responsável pelo nosso senso de identidade, individualidade e existência. É formado num primeiro momento por uma percepção geral do nosso corpo e, a seguir, pelos registros da nossa memória. O Ego é o centro no qual a nossa vontade se manifesta. Comporta nossas preferências pessoais, nossos desejos e aspirações, nossas aptidões, nossa capacidade reflexiva, nosso tipo psicológico específico: se somos introvertidos ou extrovertidos, se somos mais inclinados ao pensamento ou a sentimento, à sensação ou à intuição. O Ego tem um papel muito importante na organização da personalidade, pois cabe a ele estruturar as ligações necessárias entre todos os componentes da psique, tanto conscientes quanto inconscientes e fazer a mediação dessa realidade com as demandas do mundo exterior.


O complexo do Ego começa a se desenvolver muito cedo na vida, quando o relacionamento principal ainda é o de mãe e filho. Depois ele vai sendo influenciado pelos outros integrantes da família, expandindo-se até o contexto cultural mais amplo. A construção da nossa identidade, portanto, vai sendo profundamente influenciada pelas preferências e aversões das pessoas às quais dependemos emocionalmente quando somos crianças.

 

A Sombra

No processo de formação do Ego, algumas atitudes, tendências, características e impulsos serão aceitos pelas pessoas as quais dependemos emocionalmente e outros serão rejeitados. Aquilo que é rejeitado no processo educativo não desaparece simplesmente, mas vai se aglomerando logo abaixo da consciência, em uma região mais superficial do inconsciente pessoal, formando um complexo, que é uma espécie de alter ego ou anti-eu. Esse alter ego ou anti-eu é o que o Jung chamou de Sombra.

A Sombra, portanto, são todos os comportamentos, traços de personalidade e crenças que suprimimos ou reprimimos por terem sido considerados negativos para serem aceitos. Como fomos condicionados, e também por ser algo desagradável de admitir, costumamos negar esses aspectos. Eles passam então a ser projetados, ou seja, nós enxergamos esses conteúdos do lado de fora de nós mesmos, nas outras pessoas. São aqueles que nos irritam profundamente, pois no íntimo, representam o que não podemos ou não conseguimos admitir em nós mesmos.

Cabe lembrar que a Sombra não se constitui apenas de material negativo, censurável ou causador de mal estar, mas também de potenciais positivos que permaneceram inconscientes e subdesenvolvidos por não terem encontrado possibilidade de se manifestar durante a formação do complexo do Ego.


A Persona

A Persona é o complexo que tem por função facilitar a nossa relação com o mundo exterior.  Ela é uma interface, uma ponte natural entre aquilo que acontece no interior de nós mesmos e aquilo que vamos manifestar do lado de fora. Vai sendo construída de forma inconsciente durante o processo educativo e constitui uma espécie de compromisso com o viver em sociedade.

A Persona é como se fosse uma máscara ou fachada que exibimos para facilitar nossa comunicação com o mundo externo e assim sermos aceitos por determinados grupos do qual fazemos parte, pela sociedade em que vivemos e também para que possamos cumprir os papéis a nós exigidos. Dependemos dela nos nossos relacionamentos, no trabalho, na roda de amigos e na convivência em geral.

 


De forma positiva, a Persona auxilia na convivência em sociedade, pois transmite uma sensação de segurança, já que cada um age dentro daquilo que é esperado. Ela também serve como proteção em relação às nossas características, desejos, pensamentos ou sentimentos internos que não serão bem vistos pelos outros e que, portanto, precisamos esconder.

O aspecto negativo da Persona surge quando nos identificamos completamente com ela e acabamos perdendo contato com a nossa realidade interior. Nos tornamos pessoas rígidas, difíceis de conviver, vivendo de forma automática e sem uma reflexão mais profunda sobre a existência, na medida que ela é o que há de mais superficial e aparente em nós.


 

A Anima e o Animus

A anima constitui o lado feminino no interior do homem e o Animus constitui o lado masculino no interior da mulher. Todos nós possuímos aspectos do sexo oposto, não só biologicamente, através dos hormônios e genes, mas também psicologicamente como uma imagem, em torno da qual sentimentos e atitudes são associados.

O Ego, na sua evolução psicológica habitual, identifica-se com a qualidade feminina ou masculina do corpo e, assim, a outra parte transforma-se em uma função inconsciente, ou melhor, em um complexo. Esse complexo compõe-se de todas as nossas experiências com o sexo oposto, nossas impressões mais básicas sobre masculino ou feminino, a forma de se relacionar com eles, suas qualidades culturalmente definidas, os condicionamentos ditados pelos cromossomos e glândulas sexuais e as impressões arquetípicas tradicionalmente associadas ao feminino e ao masculino.

Normalmente experimentamos a anima ou o animus através da projeção em uma pessoa do sexo oposto. Nós os vemos fora de nós, como se fizessem parte da outra pessoa sem ter qualquer relação conosco.

Esse fato tem implicações importantes para os relacionamentos, pois tendemos a projetar no sexo oposto nossas próprias qualidades inconscientes. A pessoa que recebe essa projeção vai então nos atrair ou nos causar repulsa, da mesma forma que um imã. Quando duas pessoas projetam ao mesmo tempo suas imagens interiores temos o estado de apaixonamento. O outro passa a ser o representante desta imagem de alma que carregamos internamente. Essa situação, no entanto, é sempre limitada no tempo, pois nenhuma pessoa consegue corresponder eternamente às expectativas inconscientes de uma outra pessoa.

 

Esses são, portanto, os complexos principais. 

O Ego e a Sombra são estruturas de identidade (o Eu e o Anti-eu); a Persona, a Anima ou o Animus são estruturas de relação (o Eu na relação com o mundo externo e o Eu na relação com o mundo interno).

A partir deles, nós podemos dividir a Psique em três instâncias, de acordo com Jung:

  • A Consciência Individual, cujo centro é o complexo do Ego;
  • O Inconsciente Individual, onde está a nossa Sombra e outros complexos emocionais;
  • E o Inconsciente Coletivo, o reino dos arquétipos.

 


 
Todas essas instâncias e suas unidades especializadas estão continuamente interagindo entre si, influenciando-se mutuamente e formando um todo integrado, que Jung chamou de Self.


O Self e o Processo de Individuação

O Self é a totalidade da psique, consciente e inconsciente juntos. Mas, ao mesmo tempo, ele é também seu centro e origem, na medida em que de suas tendências formativas e organizadoras surgem todas as outras estruturas psíquicas. Tudo surge do Self e se organiza em torno dele.  É o principal arquétipo do Inconsciente Coletivo e, portanto, a força mais poderosa e influente da psique. O Self exerce uma influência orientadora, seletiva, organizadora e unificadora sobre o nosso comportamento desde o início da vida. Ele atrai para si e harmoniza os arquétipos e suas atuações, formando os complexos e contribui para unir a personalidade, trazendo para a consciência um senso de unidade e firmeza. Do ponto de vista do Ego, o Self é uma realidade superior e transcendente. É comumente sentido como o símbolo projetado da imagem divina, ou seja, ele é a imagem de Deus em nós, o arquétipo da totalidade.

O objetivo do Self é realizar a si mesmo. Realizar o que Jung chamou de Processo de Individuação: o desenvolvimento do potencial para o qual nascemos, especificamente naquilo que possuímos de mais singular, íntimo, único e incomparável. É o processo de desenvolvimento da personalidade como um todo, o que implica na diferenciação crescente em relação à psicologia do coletivo e na integração das mais variadas partes que compõem a nossa psique, para que elas possam se expressar de forma cada vez mais sutil e complexa. Esse objetivo é inato, se estende ao longo de uma vida inteira, só terminando com a morte. Não é um processo fácil, simples e nem tampouco linear. É doloroso e difícil, porque pressupõe, por parte do Ego, uma absoluta fidelidade ao processo e também uma capacidade de suporta-lo.


O Processo de Individuação é um diálogo contínuo entre o Ego, como centro da consciência, e o Self, como centro regulador e organizador da personalidade total. Quando existe um conflito de interesses entre essas duas instâncias, ou seja, quando o Ego assume uma atitude unilateral ou quando o curso de nossa vida segue por uma única direção em termos de valores e interesses, o Self atua no sentido de compensar essa unilateralidade, produzindo sintomas como forma de restaurar o equilíbrio, dando espaço para aqueles conteúdos que não tiveram voz nem vez e que são importantes para o desenvolvimento saudável da personalidade. É a partir desse mecanismo que surgem todos os processos neuróticos e psicóticos.

Na perspectiva da Psicologia Junguiana, portanto, a doença não é vista como algo negativo que deve ser eliminado a qualquer custo, mas como uma tentativa da natureza de restaurar o equilíbrio perdido e restabelecer a saúde. Nesse sentido, os sintomas são porta-vozes, vêm à serviço da nossa cura e são uma ótima oportunidade para nos conhecermos melhor.

Enfim, Jung...

Jung foi um dos precursores da visão sistêmica ou holística de saúde, superando o paradigma cartesiano da ciência de sua época. Sendo assim, ele foi um homem muito à frente de seu tempo. Tinha um atitude humanista diante de seus pacientes e entendia que eles precisavam ser vistos como um todo, não apenas como um conjunto de sintomas. Em sua ênfase sobre o Processo de Individuação, o conceito central de sua psicologia, Jung assinala de forma clara a profunda importância e valor que dava ao indivíduo, à vida humana e à realidade interior.

Como ele disse em uma de suas mais famosas frases:

“Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta.”


 

Melissa Samrsla Brendler

Psicóloga – CRP 07/13831

Psicoterapeuta Online


(*Texto originalmente elaborado para a Roda de Conversa da disciplina de Teorias da Personalidade da UFMA - Universidade Federal do Maranhão, à convite do prof. Fabio José Cardias Gomes)



segunda-feira, 22 de julho de 2019

AMADURECIMENTO e “DISSOLUÇÃO” do EGO






Depois que o Ocidente entrou em contato com as filosofias e religiões orientais, e com a crescente popularização desses conhecimentos, tornou-se bastante comum ouvirmos dizer que é preciso “abandonar o Ego” ou que é necessário que “o Ego seja dissolvido”. Do ponto de vista da Psicologia, essa concepção não está completamente errada, mas há algumas considerações que precisam ser feitas, de forma a evitarmos perigosos mal entendidos e compreendermos exatamente a que se referem esses termos.

Para tanto, precisamos olhar para o processo de estruturação e consolidação dessa instância em nossa psique, sua função e importância, para depois podermos compreender o que significa essa “dissolução”.

De forma geral, o desenvolvimento e amadurecimento do Ego se dá a partir de três níveis (ou estágios) sucessivos e distintos entre si: um primeiro estágio de indiferenciação psíquica, um segundo estágio onde há o surgimento e estruturação do Ego e um terceiro estágio onde deve haver a tal “dissolução”, que é, na verdade, a subordinação do Ego à uma realidade maior, o Self, também chamado por Jung de Si-mesmo.

No momento em que nascemos e, mais ou menos, nos dois anos seguintes, a estrutura da psique ainda não está organizada. Não há um Ego, o que significa que não há ainda um senso de identidade, individualidade e existência. Estamos em identificação com a realidade inconsciente, ou seja, somos inconscientes: não há diferenciação entre nós e aquilo que nos rodeia, entre mundo interno e mundo externo. Vivemos a vida ao sabor dos instintos e dos impulsos psíquicos básicos e reagimos a partir deles. Quando somos confrontados por dificuldades nessa fase, sentidas por nós como insuperáveis e que impedem a manifestação desses mesmos impulsos e instintos, costumamos reagir com violência e descontrole emocional. É o tipo de comportamento característico das crianças pequenas e também de certos transtornos em indivíduos adultos, cuja estruturação egóica foi comprometida em algum ponto e medida durante essa fase do desenvolvimento.

Em seguida, para que possamos dar conta das demandas da realidade objetiva, a psique inicia um processo de diferenciação dos seus componentes, através da organização de uma personalidade individual. O Ego vai emergindo lentamente da totalidade inconsciente, estruturando-se como centro da Consciência. Ele, então, torna-se o principal organizador das atividades psíquicas, entre elas o pensamento, o sentimento, a percepção, a intuição, a linguagem e a memória. Os desejos e impulsos instintivos se subordinam a ele, ficando sob o controle consciente. Surge o senso de Eu: nos reconhecemos como uma individualidade separada e começamos a sentir necessidade de nos afirmar e impor no mundo. É, portanto, uma fase bastante marcada pelo autocentramento e também pelo individualismo e competitividade, pelos medos e apegos, pelas inibições e restrições e pelos sentimentos de superioridade ou inferioridade, entre outros, pois o Ego percebe-se como algo separado de todo o resto. Quando enfrentamos alguma dificuldade, quando somos frustrados na satisfação dos nossos desejos, costumamos culpar fatores externos, o destino ou os outros, atitude considerada bastante normal para os padrões da nossa cultura.

No entanto, esse modo de operar vai gerando uma carga cada vez maior de sofrimento, de modo que o Ego vai sendo conduzido para o próximo estágio do desenvolvimento. Agora, ele precisa começar a perceber suas verdadeiras dimensões e capacidades e a se experimentar, não mais como o centro da totalidade da psique e do mundo, mas apenas como uma pequena parte deles. É a fase do reconhecimento e subordinação ao Self, a realidade psíquica maior, que abrange tanto o consciente quanto o inconsciente, à qual o Ego deve se submeter e estar à serviço. É a hora de abrir espaço para que tudo aquilo que somos se manifeste, para que seja compreendido, assimilado e integrado. Nesse estágio, começamos a perceber as dificuldades como verdadeiras oportunidades de crescimento. Procuramos encontrar as causas e as explicações para as restrições sentidas em nosso mundo interior, assumindo a responsabilidade pelos nossos problemas. E, na mesma medida em que o Ego - e suas imposições - vão gradualmente diminuindo de tamanho, vão também diminuindo nossos sentimentos de medo, inibição e limitação, dando lugar à sentimentos de aceitação, compreensão, cooperação, solidariedade, humildade, desapego, transcendência. Entramos para a fase da sabedoria e individuação, o caminho de nos tornarmos quem realmente somos.

Isso é o que muitas das antigas tradições orientais querem dizer quando falam do “abandono”, “morte” ou “dissolução” do Ego. Não que ele deva desaparecer, até porque isso significaria regredir ao estágio anterior a ele - identificar-se novamente com a totalidade inconsciente, ser dominado pelos instintos e impulsos psíquicos básicos, perdendo contato com a razão e a realidade objetiva – o que só acontece na insanidade. O que se propõe é que possamos chegar a um determinado nível de desenvolvimento em que seja possível “abrir mão” da sua hegemonia, dando espaço para que outros componentes e estruturas da psique - até então inconscientes, mas tão importantes quanto o Ego - possam se manifestar, contribuindo para nos tornarmos cada vez mais íntegros e em harmonia com a realidade interna e externa.

Tudo acontece como se o ego não tivesse sido produzido pela natureza para seguir ilimitadamente os seus próprios impulsos arbitrários, e sim para ajudar a realizar, verdadeiramente, a totalidade da psique”, como disse Marie Louise Von Franz, principal colaboradora do Jung, em “O Homem e seus Símbolos”.



Melissa Samrsla Brendler
Psicóloga - CRP 07/13831
Atende em Porto Alegre/RS



quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O Resgate da Alma Ancestral do Brasil


Sempre pensei que teria que responder a questões que o destino já propusera aos meus antepassados, sem que estes lhe houvessem dado qualquer resposta; ou melhor, que deveria terminar ou simplesmente prosseguir, tratando de problemas que as épocas anteriores haviam deixado em suspenso. (Carl Gustav Jung)


Os fatos confirmam que a alma brasileira está doente, fragmentada e mutilada. Mas qual é a origem desse sofrimento? Como curar essa dor? Que direção precisamos tomar? Para onde devemos olhar?
Roberto Gambini, sociólogo e analista junguiano, dedicou seu tempo para o estudo e reflexão acerca da origem, da história e do drama arquetípico brasileiro. Segundo o autor, nossa história é trágica e traumática. O Brasil é como um paciente que está sofrendo e precisando de tratamento. Esse, por sua vez, passa pelo reconhecimento e resgate daquilo que Gambini chamou de Alma Ancestral do Brasil. Ele acredita que se adotarmos uma atitude de olhar e compreender a fundo a nossa história, no sentido de como se deu a formação do nosso povo, poderemos construir uma plataforma de lançamento em direção ao país em que sempre sonhamos viver, um país com um futuro criativo e genuinamente nosso.

Compartilho com vocês uma transcrição adaptada e realizada por mim da palestra proferida pelo autor em 2012. Boa leitura!


O RESGATE DA ALMA ANCESTRAL DO BRASIL
Por Roberto Gambini*





Havia uma realidade humana bastante forte e estruturada na época que os portugueses chegaram no Brasil. No entanto, a imagem que os invasores tiveram é de que esse povo, até por estar nu, era um povo desprovido, vazio e sem conteúdo. Para o olhar dos europeus, os povos que habitavam o Brasil e as Américas (desde a Patagônia até o Alasca), estavam mais próximos dos animais do que dos seres humanos. E nesse sentido, há um rebaixamento e uma degradação da qualidade humana dessas pessoas. É como se aqueles habitantes, que no Brasil eram em torno de 12 milhões de pessoas, fossem semi-humanos, ainda um pouco animais e portanto, sem alma. Logo, a idéia que se tinha é que os missionários católicos, principalmente os jesuítas, viriam para cá para fazer um grande serviço, o de elevar aquele povo pagão, bárbaro, semi-humano à categoria de humanidade. E isso se deu através do batismo e da conversão dos índios ao cristianismo.

Pelo fato dos livros de história abordarem isso muito depressa, as crianças, e depois os adultos, continuam reproduzindo a visão de que os índios são uns ignorantes, preguiçosos e sem moral. O que não ficou suficientemente claro, porém, é que esse olhar era e ainda é um olhar absolutamente destrutivo. O olhar do europeu era de que o branco era indiscutivelmente superior a esses outros seres. Os índios, não possuindo nada, sendo vazios (apenas corpos) só teriam a ganhar e a receber coisas.

Por isso, nossa história se constrói basicamente sobre uma relação de corpos. Os portugueses ficaram muito interessados pelos corpos das mulheres. Eram corpos que lhe despertavam desejo, muito difícil de externalizar em um Portugal regido pela Inquisição e por normas muito duras de comportamento. As mulheres que os conquistadores conheciam eram devotas, submissas e contidas, contrastando com aquelas que encontraram no Brasil, vistas por eles como amorais, sedutoras e, acima de tudo, disponíveis e nuas. Também ficaram muito interessados pelos corpos dos homens, um corpo forte, que poderia gerar força de trabalho. No entanto, todo esse interesse era apenas pela materialidade dos corpos, já que, para os invasores, os índios não tinham idéias, pensamentos, sentimentos e elaborações culturais.

Porém, o que se sabe hoje em dia é que em 1500, no território que corresponde ao Brasil, havia pelo menos mil grupos indígenas distintos, cada um com sua cultura, com sua língua, com sua religião, com sua mitologia, com sua arte, com sua forma de viver, de obter elementos e de se relacionar com a natureza e entre si. Ou seja, essas pessoas tinham imaginação e vida interior. Elas tinham alma. Fato que foi comprovado através da análise e investigação das pinturas rupestres e incisões em pedras e rochas, algumas originadas há cerca de trinta mil anos atrás, muito mais antigas que as pinturas encontradas na França ou na Espanha, por exemplo, que datam de doze ou treze mil anos atrás, as mais antigas encontradas na Europa.

Mas o que isso significa? Significa que há 30 mil anos atrás, o Brasil estava evoluindo, que aqui estava acontecendo uma coisa fantástica, que é o surgimento da inteligência moderna. Nesses milhares de anos atrás, no Brasil, juntaram-se quatro modalidades diferentes de inteligência: a capacidade de entender o meio ambiente, a capacidade das pessoas de entenderem umas às outras e poderem se relacionar, a capacidade de criar linguagem e a capacidade de criar histórias, mito e religião. E isso é alma.

Da junção dos europeus que aqui desembarcaram e dos autóctones que aqui habitavam, dois tipos de alma tão distintos, poderia ter surgido algo maravilhoso, mas infelizmente não foi o que aconteceu. A alma européia destruiu a alma indígena. E o fez destruindo a sua religião, destruindo as suas crenças mais sagradas, sua mitologia e a sua visão de mundo. A grande tática de conquista no Brasil não foi os canhões, as espadas ou as armas de fogo, foi a religião. O povo indígena, por sua vez, por ter uma natureza pacífica, não ofereceu resistência. Eles acreditavam que aquele recém chegado iria lhe fazer o bem.

Então, quando pensamos em alma brasileira, como algo que queremos conhecer e resgatar, nós precisamos, antes de tudo, reconhecer que no início da nossa história houve uma negação. Havia uma alma, e esta alma foi negada e, conseqüentemente, destruída. No plano real, concreto, isso se deu pela formação do casal típico, composto por um português e por uma mãe índia. Darcy Ribeiro disse certa vez, que esses primeiros brasileiros eram “Zé Ninguéns”. O Zé Ninguém é aquele que não sabe quem ele é, não sabe o quanto vale, o que pode sonhar e o que pode construir. Ele simplesmente vai vivendo a vida, andando conforme suas forças. Então, desses primeiros Zé Ninguens formaram-se massas enormes de população no Brasil, que não tinham uma característica, um ideário ou valores próprios de identidade. Um povo ignorante em relação à perda de metade de sua riqueza.

Por isso, o resgate da alma brasileira passa por procurar aquilo que foi perdido. Passa por compreender que a nossa identidade não se faz por cópia, não se faz por políticas públicas, não se faz por imitar nenhum outro povo. Ela se faz pelo mergulho dentro de nós e dentro desse passado. Muitas pessoas estão chegando a isso pela via das artes plásticas ou manuais, da palavra escrita, da literatura, da poesia, da música, da moda e da estética, dos modos de viver e dos objetos, e também pela via do reconhecimento de que nós temos algo que é absolutamente perfeito e que vem da vida indígena: uma enorme alegria de viver e de estar junto com as pessoas.

A tribo, por exemplo, é uma das maiores criações sociológicas da humanidade, porque ela se baseia nos conceitos da igualdade, da cooperação e da partilha. Na tribo não há domínio, não há diferença entre os seus membros, não há a ideia de “eu” ou “meu”. Se formos observar a construção de uma casa indígena, veremos que todos os homens e mulheres irão participar de forma igualitária. Não há um mestre de obras, um arquiteto ou alguém que esteja no comando dizendo o que cada um deve fazer. Todos sabem o que é preciso fazer e todos cooperam para que o trabalho aconteça. Também não há divisão entre trabalho e lazer. Para os índios, eles não são conceitos antagônicos. Se, por exemplo, durante a construção dessa casa, alguém chega com um favo de mel, o trabalho logo é interrompido para que todos possam desfrutar daquele mel, e tudo isso é acompanhado de muita brincadeira e diversão. Portanto, há uma sabedoria implícita aí de como é possível viver a vida sem neurose, sem stress, sem amargura e sem destruir aquilo que existe de bom. E tudo isso faz parte do nosso genoma, da parte psíquica do genoma brasileiro: a capacidade de criar vida em conjunto no meio ambiente, criando prazer e alegria para todos. Todas essas características são facilmente observadas em Parques Nacionais, como o do Xingu, onde a cultura indígena encontra-se ainda bastante preservada.

Muita gente hoje no Brasil tem tentado resgatar essa realidade, tornando-a viva e consciente. Procurando olhar para o nosso território e percebendo aquilo que existe de bom: o litoral, o valor dos rios, riachos e cachoeiras, das frutas e seus sabores, as cores, as pinturas e, principalmente, o resgate do prazer com o próprio corpo. Os índios são mestres na arte de exaltar o corpo, de se encantar com ele, de enfeita-lo através das pinturas e adereços, através das danças, enaltecendo aquilo que ele tem e nos traz de bom. Para os missionários, isso foi visto como algo demoníaco ou diabólico, mas se olharmos com o olhar contemporâneo, veremos que os índios brasileiros são, entre todos os povos, os que mais conseguem ter alegria e prazer com o próprio corpo, que mais conseguem iluminar a sua beleza, e por um motivo muito simples: porque é bom! Por isso, a nudez indígena é uma grande lição. Ela não tem nada a ver com vergonha ou falta dela. Pelo contrário, a nudez é o reconhecimento da beleza e do prazer do nosso corpo, longe dos padrões culturais socialmente impostos.

Portanto, essa busca pela alma brasileira é algo que nos fará evoluir. Se estivermos realmente em processo de busca, cada um do seu jeito e com suas ferramentas, e conhecendo essa alma ancestral, vamos perceber que, enquanto povo, estamos em um processo único e muito interessante. Nós estamos fazendo um retorno, estamos indo para aquilo que a gente era no começo, só que atualizado à contemporaneidade. E nessa busca pela nossa alma ancestral, vamos reaprender como é saber viver a vida com pouco, como é ver a beleza do pequeno ao infinito, como é ter vida interior e saber ter relacionamentos que sejam geradores de cooperação. Isso não é algo artificial, pelo contrário, isso está no nosso genoma, no nosso nascedouro, naquele tempo lá atrás. Basta resgatar.

O Brasil é um país que tem a possibilidade de retomar uma energia que brota da Terra e que nos conduz sem erro a sermos aquilo que a gente deveria ter sido desde o começo. Esse processo acaba com o complexo de inferioridade, acaba com o complexo de “Vira-Lata” , como dizia Nelson Rodrigues, dando início a um processo de valorização de tudo: da diversidade do nosso território, do tamanho dele, da sua abundância, do fato de não haver catástrofes naturais terríveis aqui e do fato de também haver muitas outras culturas que vieram e se integraram. É como se no Brasil fosse possível fazer uma obra alquímica, na qual colocam-se diversos ingredientes em uma mesma panela e no final do processo há uma grande metamorfose, fazendo surgir uma obra preciosa.

É claro que existem muitos problemas no Brasil. Nós somos um país bastante injusto, desigual e excludente. A maior parte da população brasileira não tem acesso aos bens mais elementares, enquanto uma minoria dispõe da maior parte dos privilégios e da riqueza. E todos nós sabemos que essa não é uma herança indígena, pelo contrário. O igualitarismo é indígena. Ele existia, mas foi pervertido. Por isso, é preciso um trabalho nas duas direções: nós temos uma problemática socioeconômica e nós temos uma problemática psicológica e cultural. Essas duas problemáticas têm que andar juntas, e uma alimenta a outra.

O sonho de um Brasil dono de si, digno e que reconheça o seu próprio valor não é algo artificial, é algo que ficou reprimido. Logo, isso pode ser trabalhado e trazido para a consciência. Cada um que fizer esse trabalho a partir de si mesmo ficará com uma força nova. Essa força terá poder de multiplicação e dará luz a uma energia direcionada para a construção, não apenas de uma identidade, mas principalmente de uma história liberada. Uma história que poderá então correr livre, sem ser distorcida. E esse é o grande sentido do resgate da Alma Brasileira. 


* Analista formado pelo Instituto C.G.Jung de Zurique, membro da Sociedade Internacional de Psicologia Analítica e da Sociedade Suíça de Psicologia Analítica. É analista, sociólogo, advogado e Mestre em Ciências Sociais pela Universidade de Chicago. É autor de vários livros sobre a formação da Alma Brasileira, entre eles O Espelho índio: os Jesuítas e a Destruição da Alma Indígena, Ed. Espaço e Tempo, 1988, além de vários artigos.


Por Melissa Samrsla Brendler
Psicóloga - CRP O713831
Atende em Porto Alegre – RS

terça-feira, 16 de outubro de 2018

O VÉU DAS ILUSÕES DE MAYA


Nosso modo de ser, condiciona nosso modo de ver.
(Carl Gustav Jung)

Maya nas mitologias orientais hindu e budista é o princípio causador da ilusão em todas as suas manifestações. É a miragem, o mundo das aparências, dos delírios e da alucinação. Representa nossas limitações de consciência e os condicionamentos que nos impedem de ver a verdadeira realidade das coisas. As sombras projetadas no fundo da caverna de Platão.

O homem aprisionado em Maya vive na ignorância. Considera o efêmero como eterno, a matéria como espírito, a dor como bem-aventurança, o falso como verdadeiro.

Maya, ao levantar seu véu revela a verdadeira natureza de todas as coisas.

"Vá mais fundo
Não seja apanhado
Na magnificência da minha criatividade
Minha criação é a ilusão
Por trás da qual está o conhecimento 
Eu sou Maya, a Mãe da Criação”


Maya detém o poder criador. Ela cria inúmeras e infinitas formas, mas nenhuma delas são dotadas de realidade e eternidade. Tudo é transitório. Tudo tem um início e um fim.


Maya nos convida à reflexão: 
o que é ilusão, o que é verdadeiro, o que é real?
É bom prestarmos muita atenção ao que nos chega. 
Será que estamos percebendo o que é real ou será que estamos enxergando algo que não existe?



Melissa Samrsla Brendler
Psicóloga - CRP O713831
Atende em Porto Alegre - RS 

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

A Morte nos ensina a Viver




Nossa cultura é faltante. Falta maturidade, integridade, realidade. O tempo acaba, mas a maioria de nós não percebe que, quando olha o relógio repetidas vezes esperando o fim do dia está, na verdade, torcendo para que o tempo passe e a morte se aproxime.

O que separa o nascimento da morte é o tempo. Vida é o que fazemos dentro desse tempo, é a nossa experiência. Quando passamos a vida esperando pelo fim do dia, pelo fim de semana, pelas férias, pelo fim do ano, pela aposentadoria, estamos torcendo para que o dia da nossa morte se aproxime mais rápido. Dizemos que depois do trabalho vamos viver, mas esquecemos que a opção vida não é um botão on/off que desligamos conforme o clima ou o prazer de viver. Com ou sem prazer, estamos vivos 1OO% do tempo. O tempo corre em ritmo constante. Vida acontece todo o dia, e poucas vezes parecemos nos dar conta disso.

Enquanto desperdiçarmos tempo aceitando ilusões sobre o que é a vida, não podemos chegar à essência dela. Falta verdade sobre o nascer e o viver, e passamos a vida toda sob a falta de verdade sobre o que é morrer. Todo mundo morre, mas nem todo mundo um dia vai poder saber por que viveu.

O problema é que pensamos que somos eternos. Por causa dessa ilusão, vivemos nossas vidas de modo irresponsável, sem compromisso com o bom, o belo e o verdadeiro, distanciados da própria essência. Não gostamos de falar ou pensar sobre a morte. Somos como crianças brincando de esconde-esconde numa sala sem móveis. Tapamos os olhos com as mãos e achamos que ninguém nos vê. Acreditamos de forma ingênua que se não pensarmos na morte, é como se ela não existisse. E é justamente essa ingenuidade que praticamos o tempo todo com a nossa própria vida. Pensamos que, se não olharmos para o lixo de relação afetiva, o lixo de trabalho, o lixo de vida que preservamos a qualquer preço, será como se o lixo não existisse. Mas o lixo se faz presente. Cheira mal, traz desconforto e traz doenças.

Assim, vivemos como mortos-vivos: mortos para as relações de amizades, mortos para o encontro amoroso, mortos para a família e mortos para a relação com o sagrado em nossas vidas. Viver como mortos-vivos faz com que não consigamos viver de forma genuína. Existimos, mas não vivemos. Quantos de nós são assim!

Agimos, na verdade, como zumbis existenciais. Nas redes sociais, insistimos em compartilhar violência e preconceito, persistimos na vaidade de nos mantermos infelizes por dentro e bobamente felizes por fora. Cultivamos cada vez mais a própria morte, sem nos darmos conta disso. Agimos como crianças adormecidas, estranhamente crescidas, nuas, com as mãos tapando os olhos, acreditando-se invisíveis, sem percebermos que estamos expondo nossas piores expressões à luz de toda a sociedade. Estamos ausentes da própria vida, e isso é justamente um dos maiores arrependimentos que experimentamos no fim da vida.

Essa falta na própria vida é algo difícil de explicar. A conexão interna, a conexão com o outro, com a natureza, com o mundo à nossa volta e com o que cada um de nós considera sagrado exige, antes de tudo, um estado de presença. Não há espaço para falar sobre finitude com quem não está vivo em sua própria vida, com quem já se enterrou em todas as sua dimensões humanas e caminha sem rumo. Só falta morrer fisicamente.

O ser humano é a única espécie na terra que é definida por um verbo: SER humano. Nascemos animais, mamíferos pensantes e conscientes, mas só nos tornamos humanos à medida que aprendemos a SER humanos. No entanto, a maior parte dos animais da nossa espécie ainda não sabe o que é isso. E este é o verdadeiro sentido da expressão humanização. A princípio, parece sem sentido humanizar o humano. Mas percebemos claramente que a maior parte dos animais pensantes e conscientes da nossa espécie se comporta de maneira instintiva e cruel, não se aprofundando em seus pensamentos, sentimentos e atitudes. Falar em humanizar, portanto, faz todo sentido. Estamos sendo, e a completude desse SER só se dá quando sabemos qual é a finalização desse processo. Cada um de nós se organiza, se descobre, se realiza para SER humano até o dia em que a morte chega, e é só a consciência da morte que faz nos apressarmos para construir esse SER que deveríamos ser.

No entanto, não se trata de fazer alguma coisa. Isso é se distanciar do SER pelo caminho do FAZER. Ter uma vida boa não se trata de ter coisas ou fazer coisas. A ideia de SER humano é simplesmente existir e fazer diferença no lugar onde estamos, justamente por sermos quem somos. Do contrário, quando chegarmos no tempo de morrer, teremos que encarar o fato de que fomos apenas isso: ausência.



Por Melissa Samrsla Brendler
Psicóloga – CRP O7/13831
Atende em Porto Alegre/RS

Adaptado de ARANTES, Ana Claudia Quintana. A morte é um dia que vale a pena viver. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2O16.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Manifesto ao Amor




Onde existe amor, não existe poder. Um é a sombra do outro. Mas o que é o amor? O amor é um sentimento complexo, não é simplesmente um instinto, como a fome ou o medo, por exemplo. Não é uma emoção, paixão, encanto ou fascinação. Também não é algo que está dado ou posto como garantido. O amor é construção: envolve esforço, vontade, tempo e dedicação. É, acima de tudo, um estado de consciência, uma forma de estar no mundo, uma maneira de se relacionar, de ver a si mesmo e aos outros.
O amor é livre, não cabe em rótulos, grades ou caixas. Não pode ser forçado, só cultivado. O amor é múltiplo, vasto e válido em todas as suas manifestações. Ele é Eros, o elo de ligação, mas também é a base de onde nasce a empatia, o respeito, a compreensão e a compaixão.
O amor é o maior dos ensinamentos da humanidade. É o mestre que exige de nós evolução freqüente - em relação aos nossos preconceitos, às nossas falhas e intolerâncias. É o sentimento que une e cura tudo o que alcança e, por ser assim, é a nossa esperança!O amor não pode ter fim, pois “onde acaba o amor, têm início o poder, a violência e o terror” (Carl Jung).
Por isso, amor profundo!
Por nós e para todos nós... 

Por Melissa Samrsla Brendler
Psicóloga - CRP O713831 Atende em Porto Alegre - RS 

#amorelesim #amorsim #amor #partidodoamor 





quinta-feira, 6 de setembro de 2018

MEDUSA E PERSEU: um breve ensaio sobre a psicologia e superação do trauma




As Górgonas na Mitologia Grega eram três irmãs-monstros com a cabeça rodeada de serpentes venenosas enfurecidas, presas de javali saindo dos lábios, mãos de bronze e asas de ouro. A mais famosa delas é Medusa, a única das três que era mortal. Quem se atrevesse a olhar diretamente para os seus olhos, era petrificado.
As Górgonas eram as três irmãs-monstros: Medusa, Esteno e Euríale
Há diversas versões do mito. Uma delas conta que Medusa foi uma mulher deslumbrante, que despertava o desejo de todos os homens da Grécia e a inveja de todas as mulheres. Ela não podia se casar, pois era sacerdotisa de Atena (deusa da guerra) cujas servas deveriam permanecer virgens e longe dos desejos masculinos. No entanto, Poseidon (deus dos mares), enlouquecido pelo desejo, violentou a sacerdotisa dentro do templo de Atena, engravidando-a. Esta, ao saber do ocorrido, volta sua ira contra Medusa, jogando uma maldição sobre a sacerdotisa transformando-a em um monstro horripilante.

O castigo foi além da mudança em sua aparência, pois também passou a petrificar as pessoas com o seu olhar, além de tornar-se alvo para os guerreiros, já que Atena passou a oferecer incríveis recompensas para aquele que lhe trouxesse sua cabeça a fim de transforma-la em uma poderosa arma de batalha. O único herói que conseguiu derrota-la foi Perseu, que com sandálias aladas, um elmo de invisibilidade, uma espada e um escudo espelhado (objetos que recebeu como ajuda de Atena, Hermes e Hades) conseguiu decepar sua cabeça sem ser visto, olhando apenas para o reflexo de Medusa no escudo, evitando assim ser transformado em pedra.

Medusa pode ser entendida, portanto, como símbolo de um complexo emocional que tem suas origens a partir de uma experiência traumática. O trauma é como uma camisa de força interna, criada quando um momento devastador é congelado no tempo, petrificando, tirando a vitalidade, a espontaneidade e qualquer possibilidade de desenvolvimento na vida do indivíduo. Em função do trauma, a necessidade de crescer e evoluir fica estagnada, paralisada. A energia vital disponível fica presa no complexo e não pode fluir.

Medusa, obra de Bernini no Museu Capitolinos em Roma

O ato heroico de Perseu, por sua vez, nos mostra que quando resolvemos tratar um trauma nunca devemos ir logo de frente a ele, mergulhar de cabeça, sob o risco de sermos “petrificados”, ou seja, fortalecer ou recriar o trauma. É preciso ir devagar, de forma indireta como Perseu fez, através dos reflexos desse trauma na formação das nossas respostas instintivas, resgatando pouco a pouco os pedacinhos do trauma, até que o Ego sinta-se fortalecido, com tempo e condições de integrar a experiência, liberando a energia presa no complexo e direcionando-a a favor da vida.

Na Alquimia, há a expressão “petra genetrix” que significa “fora da pedra uma criança nasce”. Ou seja, quando a energia presa e congelada no complexo é liberada, uma vida nova pode nascer!




Por Melissa Samrsla Brendler
CRP 07/13831
Atende em Porto Alegre/RS





Ref.: CANOVAS, Vera. Perseu e Medusa, um estudo psicológico do trauma. Disponível em www.veracanovas.com.br/perseu-e-a-medusa-um-estudo-psicologico-do-trauma. CHEERBRANT & CHEVALIER. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2001. HILLMAN. James. Puer Aeternus. Adelphi ebooks. Disponivel em https://books.google.com. WIKIPEDIA. Medusa, monstro da mitologia grega. Disponível em  https://pt.wikipedia.org